terça-feira, 20 de março de 2012

Das 8 às 5

Das oito às cinco não cabe o eu
nem cabe o brotar de ideias -
só o automatismo cabe das oito às cinco.
Das oito às cinco não cabe abrir a janela
não cabe o voo do pássaro
o ar fresco
o sorriso espontâneo
a digestão do almoço.
Das oito às cinco não cabe o tempo do agora -
tudo é pra ontem das oito às cinco.
Não cabe mastigar a comida
ligar prá família
pagar as contas
cantarolar
ou regar as plantas.
Não cabe admirar as plantas das oito às cinco.
Não cabe a poesia das oito às cinco.
Das oito às cinco só cabe a frustração. E a vontade de ser mais livre.
(MAVN, 20 de março de 2012)

terça-feira, 13 de março de 2012

Essa menina que mora na rua


Essa poesia nasceu no ano passado, de um olhar mais atendo ao redor....e me veio com melodia, como uma música....Hoje, eu conheci essa menina. E ela dormia profundamente e serenamente, em uma rua movimentada de uma metrópole Brasileira, ao lado da fachada azul da Blockbuster. (Rio, 13/03/12)

“Essa menina que mora na rua
Que mora debaixo da marquise azul
Essa menina tem sonhos coloridos
Assim como os meus
                     
Sonha em rodar o mundo
Sonha com abraço de edredom quentinho
Sonha em morar em Bruxelas
Ou aqui num lugar legal

Essa menina que mora na chuva
Que se parece com uma flor solitária
E se parece com um girassol
Busca o sol assim como eu

Esssa menina que mora na rua
Que mora debaixo da marquise azul
Busca a palavra que explique o mundo
Que, como eu, ainda não entendeu”

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Dia da Irmã


Hoje é Dia dos Irmãos. 
Soube disso por meio de meu pai, que me ligou cedo pra me falar. Logo disse a ele que ligaria prá Amanda, minha irmã (que já apareceu por aqui, na postagem sobre o Natal). Mas me esqueci. Não porque não tenha amor por ela, mas porque sou muito distraída. Cada vez mais. No momento em que ele me ligou eu, como boa geminiana que sou, estava fazendo umas três coisas ao mesmo tempo, e não dei conta de guardar a tarefa na mente. Passado o dia, quem me lembrou da data foi a própria Amanda, ainda há pouco. Que sem graça que fiquei! 

Mas não é a vergonha nem a necessidade de retratação que me trazem a essas linhas. É, antes, uma necessidade maior de registrar como sou feliz por ter a irmã que tenho.

Relação de irmãos é curiosa, é uma mistura delicada de competição e cumplicidade, que dependendo do caso, pode descambar mais prá competição do que prá colaboração. Já vi casos em que a presença de um irmão era um verdadeiro tormento pro outro, casos em que um só ficava bem longe do outro, e isso é muito triste de se ver. Isso nunca aconteceu lá em casa, pelo menos não da minha parte, e se aconteceu da parte dela nunca tomei ciência. Não que nossa relação tenha sempre sido um mar de rosas. Quando mais nova eu costumava achar que brigávamos muito, que éramos muito diferentes, que tínhamos gênios completamente incompatíveis... mas hoje percebo que muito das brigas eram por motivo fútil, e nós nunca extrapolamos as barreiras da boa convivência entre irmãos.

Claro que quando eu era adolescente, e quando a diferença de 8 anos entre Amanda e eu pesava demais, quando chegava a hora de ir prá rua ficar com os colegas da minha idade, onde sempre tinha um cara bonito que eu queria muuuitoo namorar, eu odiava quando minha mãe dizia: ‘leva tua irmã contigo’. E eu, a filha-mais-velha-que-não-podia-dizer-não, levava a irmã pelo braço, completamente contrariada. Claro que não a tratava bem... claro que na confusão dos sentimentos adolescentes eu achava que a culpada era ela. Mas não era. Não tinha culpa nenhuma... e mesmo não gostando, tive que levar Amandinha pra tudo quanto é canto.
E outra coisa também que acontecia lá em casa, como acontece em todas as casas, ou em quase todas, é a clássica comparação que os pais fazem dos filhos, e os papéis que os pais atribuem aos rebentos. A mais velha tem que ser o exemplo sem nem saber nada da vida, a mais nova já nasce com um exemplo a seguir. Fulana é quem sabe fazer tal coisa. Ciclana!! Você tem que fazer como tua irmã!! Muito complexo pra duas crianças. Mas isso aconteceu, repito, dentro dos parâmetros normais de uma relação familiar saudável...mas até que eu, até que ela nos déssemos conta disso, certamente muita frustração ficou acumulada. E pode até ter alguma guardada, que a gente é humano e não aprende cedo a reciclar emoções. Eu cresci um pouco sufocada no dever de ser exemplo, e confesso que queria muito ser uma boa irmã mais velha, ter sempre a resposta certa pra ajudar minha irmãzinha. Queria poder ensiná-la o caminho das pedras pra ela nunca sofrer.  Amanda, por sua vez,  cresceu tendo muita atitude, certamente buscando seu lugar ao sol, ou melhor, buscando o seu próprio sol que não fosse o meu, e assim tentava fugir do estigma da irmã mais nova.
Hoje tenho 33 anos, ela tem 25, e nossa relação evoluiu bastante. Estamos mais próximas da cumplicidade do que da competitividade, e isso é muito bom. É mais: é excelente encontrar na tua irmã uma amiga. Nem sempre a gente entende uma à outra, temos sim temperamentos bem diferentes e de vez em quando as diferenças pesam... mas é isso, hoje nos vejo muito mais cúmplices e companheiras. Como todos os irmãos devem ser, aliás.
Ficam aqui, minha irmãzinha, essas breves linhas pra você. Te amo tão fundo que dói. Deus me prive de te perder, ou de perder a confiança que você deposita em mim.  Desejo que ainda possamos comemorar muitos e muitos Dias dos Irmãos... A partir do ano que vem, prometo, ficarei mais atenta à data!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pro sobrinho que nasceu


Um fragmento de uma leitura que eu fazia coincidentemente enquanto meu mais novo sobrinho (postiço) estava nascendo - e veio bem a calhar.

"Se refletirmos bem, estas são mudanças [ocorridas na história humana] extraordinárias, todas elas decorrentes da compreensão dos nossos defeitos. Rita Levi Montalcini explicou isso muito bem no seu livro L'elogio dell'imperfezione (O elogio da imperfeição). (...)
[naquele tempo] (o) dinossauro era perfeito já na sua origem, já sabia se mover, já sabia obter alimento sozinho e, portanto, os genitores o abandonavam à própria sorte. O ser humano, ao contrário - e eis aqui novamente o elogio da imperfeição -, nasce indefeso. Se não fosse socorrido, morreria em poucas horas.
Contudo, a sua fraqueza se transforma na sua força, pois a assistência biológica que se dá ao seu desenvolvimento durante tanto tempo implica também a aculturação do indivíduo. Nós somos os únicos animais que precisam de ao menos dez anos de assistência para que nos tornemos indivíduos em condições de sobreviver. E somos os únicos animais que não recomeçam sempre do início, mas que, além das características hereditárias e do saber instintivo, recebem dos adultos o sabe cultural".

(extraído de 'O Ócio Criativo', de Domenico de Masi)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Papa e a Economia

Finalmente concordo com alguma coisa que o Papa Bento XVI fala. O ser humano deveria mesmo ser o centro da economia. Aqui mesmo, no Brasil, a presidenta fala que fim da miséria só se consegue com crescimento do crédito...e a educação de qualidade? E a saúde? Enfim, e o verdadeiro investimento no ser humano e na qualidade de vida? O ser humano brasileiro segue sendo tratado cada vez mais como ser consumidor. E o a busca pelo 'fim da miséria' nada mais é do que uma forma de manter a economia aquecida.

domingo, 29 de maio de 2011

Torna-te quem tu és

Resolvi, depois de muito pensar, que vou ter um bichano. 
A vontade veio de repente, há alguns meses atrás. E daí prá frente, fatos diversos só a fortaleceram. 
A gatinha do primeiro andar do prédio em que moro passou a fazer hora na janela, e eu me adaptei a brincar com ela quando chegava do trabalho. Conheci dois gatos lindos, o Frodo e a Frida, e fiquei fascinada por eles,  por suas posturas aristocráticas, postura aliás que todo gato tem. 
Com o tempo, passei a sonhar com gatos. Frequentemente. Sistematicamente. Primeiro um, depois mais de um, e por fim, vários! A vontade tinha chegado ao sub-consciente, e eu precisava tomar uma atitude urgente! Tirar logo essa indecisão da minha cabeça.
E então, eis que recebo um e-mail falando de um gatinho, muito bonitinho e alegre, que foi abandonado na rua, e foi abrigado por alguém de muito bom coração, mas que mora numa casa cuja dona não gostou do bichano.  E onde, ainda por cima, o felino apanhava da gata que já morava lá. 
Nesse e-mail, a remetente assinava com uma frase do Nietzsche que diz "Torna-te quem tu és". Não entendi, na hora, a mensagem. Mas agora, dias depois, enxergo que essa frase era a resposta prá dúvida que me martelada a mente - adoto ou não um gatinho?
Eu acredito que estamos no mundo pra aprender, e que a experiência de cuidar de bichos é, primeiramente, um grande aprendizado. Além disso, é um ato de compaixão muito grande, ainda mais na nossa sociedade que não cuida bem nem dos humanos, quem dirá dos animais. E no fim das contas, optar por ter um animal de estimação é uma escolha pessoal.
Pois bem...aprender, exercitar a compaixão e bancar as próprias escolhas são posturas que estou buscando ter cada vez mais na minha vida. Por isso entendo que, ao adotar um gatinho, estarei me tornando quem eu sou (e ao contrário do que parece, isso não é nada fácil!). Serei mais amorosa, mais zelosa, mais alegre, mais 'multiatarefada'...Será também um grande exercício de desapego aos bens materiais. Não que eu não valorize o que tenho, mas terei que entender se eventualmente um móvel for arranhado, ou algum objeto derrubado com a calda do amiguinho...rs
Bem, é isso, estou trazendo mais essa aventura prá minha vida. Vamos ver no vai dar!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"O homem não quer ficar triste"

Sexta-Feira Santa, feriado. Dia em que gosto de seguir num ritmo mais leve. Por isso resolvi passar um pouco do tempo vasculhando minha caixa de e-mails enviados, à procura de determinadas mensagens, por um motivo que não vem ao caso comentar...aí, encontrei essa reportagem excelente com o Dr. Mighel Chalub, sobre o recurso cada vez maior a ansiolíticos, fenômeno que aqui no Brasil está assumindo proporções cada vez maiores. 
Compartilho a entrevista com vocês. Espero que gostem.
E antes que fiquem preocupados comigo...não, eu não estou deprimida, e não uso ansiolíticos...rs

"O homem não aceita mais ficar triste" (Dr. Miguel Chalub - Revista IstoÉ)
 
Uma das maiores autoridades brasileiras em depressão, o médico diz que, hoje, qualquer tristeza é tratada como doença psiquiátrica. E que prefere-se recorrer aos remédios a encarar o sofrimento
  
Chalub afirma que muitos médicos se rendem aos laboratórios farmacêuticos e Indicam antidepressivos sem necessidade
 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 – atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem do problema. Para o psiquiatra mineiro Miguel Chalub, 70 anos, há um certo exagero nessas contas. Ele defende que tanto os pacientes quanto os médicos estão confundindo tristeza com depressão. “Não se pode mais ficar triste, entediado, porque isso é imediatamente transformado em depressão”, disse em entrevista à ISTOÉ.
 
"Hoje, brigar com o marido, sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Mas o sofrimento não significa depressão"
 
Professor das universidades Federal (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ele afirma que os psiquiatras são os que menos receitam antidepressivos, porque estão mais preparados para reconhecer as diferenças entre a “tristeza normal e a patológica”. Mas o despreparo dos demais especialistas não seria o único motivo do que o médico chama de “medicalização da tristeza”. Muitos profissionais se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. “Os laboratórios pagam passagens, almoços, dão brindes. Você, sem perceber, começa a fazer esse jogo.”
 
"Há a tendência de achar que o medicamento vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade"

Istoé - Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?
 
Miguel Chalub - Porque estão sendo computadas situações humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais ficar entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado em depressão. É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É transformar um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das situações, numa entidade patológica. 
 
Istoé - Por que isso aconteceu?
 
Miguel Chalub - A palavra depressão passou a ter dois sentidos. Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a pessoa estava triste, mas com uma tristeza profunda, vivida no corpo. A própria postura mostrava isso. Ela não ficava ereta, como se tivesse um peso sobre as costas. E havia também os sintomas físicos. O aparelho digestivo não funcionava bem, a pele ficava mais espessa. Mas, nos últimos anos, a palavra depressão começou a ser usada para designar um estado humano normal, o da tristeza. Há situações em que, se não ficarmos tristes,  é um problema – como quando se perde um ente querido. Mas o homem não aceita mais sentir coisas que são humanas, como a tristeza.
 
Istoé - A que se deve essa mudança?
 
Miguel Chalub - Primeiro, a uma busca pela felicidade. Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque, aí, justifica: “Eu não sou feliz porque estou doente, não porque fiz opções erradas.” Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo, à tendência de achar que o remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.
 
Istoé - O que diferencia a tristeza normal da patológica?
 
Miguel Chalub - A intensidade. A tristeza patológica é muito mais intensa. A normal é um estado de espírito. Além disso, a patológica é longa.
 
Istoé - Quanto tempo é normal ficar triste após a morte de um ente querido, por exemplo?
 
Miguel Chalub - Não dá para estabelecer um tempo. O importante é que a tristeza vai diminuindo.  Se for assim, é normal. A pessoa tem que ir retomando sua vida. Os próprios mecanismos sociais ajudam nisso. Por que tem missa de sétimo dia? Para ajudar a pessoa a ir se desonerando daquilo.
 
Istoé - Quais são os sintomas físicos ligados à depressão?
 
Miguel Chalub - Aperto no peito, dificuldade de se movimentar, a pessoa só quer ficar deitada, dificuldade de cuidar de si próprio, da higiene corporal. Na tristeza normal, pode acontecer isso por um ou dois dias, mas, depois, passa. Na patológica, fica nas entranhas.
 
Istoé - Ainda há preconceito com quem tem depressão?
 
Miguel Chalub - Não. É o contrário. A vulgarização da depressão diminuiu o preconceito, mas criou outro problema, que é essa doença inexistente. Antes, a pessoa com depressão era vista como fraca. Hoje, as pessoas dizem que estão deprimidas com a maior naturalidade. Não se fica mais triste. Se brigar com o marido, se sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Pode até ser que alguém fique realmente com depressão, mas, em geral, fica-se triste. O sofrimento não significa depressão. E não justifica o uso de medicamentos.
 
Istoé - Os médicos não deveriam entender este processo?
 
Miguel Chalub - Os médicos não estão isentos da ideologia vigente. O que acontece é: você vem ao meu consultório. Eu acho que você não está deprimido, que está só passando por uma situação difícil. Então, proponho que você faça um acompanhamento psicoterápico. Você não fica satisfeito e procura outro médico, que receita um antidepressivo. Ele é o moderno, eu sou o bobão. Para não ser o bobão, eu receito um antidepressivo logo. É uma coisa inconsciente.
 
Istoé - Inconsciente?
 
Miguel Chalub - Os médicos querem corresponder à demanda. Senão, o paciente sairá achando que não foi bem atendido. Receitando um antidepressivo, eles correspondem à demanda, porque a pessoa quer ser enquadrada como deprimida. Mas há a questão dos laboratórios. Eles bombardeiam os médicos.
 
Istoé - A ponto de influenciar o comportamento deles?
 
Miguel Chalub - Se for um médico com boa formação em psiquiatria, mesmo que não seja psiquiatra, ele saberá rejeitar isso, mas outros não conseguem. Eles se baseiam nos folhetos do laboratório. Não é por má-fé. Os laboratórios proporcionam muitas coisas. Pagam passagens, almoços, dão brindes. O médico, sem perceber, começa a fazer o jogo. Porque me pagaram uma passagem aérea ou me deram um laptop, acabo receitando o que eles estão querendo.
 
Istoé - O médico se vende?
 
Miguel Chalub - Sim. Por isso é que há uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibindo os laboratórios de dar brindes aos médicos. Nenhum laboratório suborna médico, não que eu saiba, nem vai chegar aqui e dizer: “Se você receitar meu remédio, vou lhe dar uma mensalidade.” Mas eles fazem esse tipo de coisa, que é subliminar. O médico acaba tão envolvido quanto se estivesse recebendo um suborno realmente.
 
Istoé - Esse lobby é capaz de fazer um médico receitar certo remédio?
 
Miguel Chalub - Aí é a demanda e a lei do menor esforço. Se o paciente chegar se queixando de insônia, por exemplo, o que o médico deveria fazer era ensiná-lo como dormir. Ou seja, aconselhar a tomar um banho morno, um copo de leite morno, por exemplo. Mas é mais fácil, tanto para o paciente quanto para o médico, receitar um remédio para dormir.
 
Istoé - Os demais especialistas também receitam remédios psiquiátricos, não?
 
Miguel Chalub - Quem mais receita antidepressivos não são os psiquiatras, são os demais especialistas. Os psiquiatras têm uma formação para perceber que primeiro é preciso ajudar a pessoa a entender o que está se passando com ela e depois, se for uma depressão mesmo, medicar. Agora, os outros, não querem ouvir. O paciente diz: “Estou triste.” O médico responde: “Pois não”, e receita o remédio. Brinco dizendo o seguinte: se você for a um clínico, relate só o problema clínico. Dor aqui, dor ali. Não fale que está chateado, senão vai sair com um antidepressivo. É algo que precisamos denunciar.
 
Istoé - Os psiquiatras deveriam ser os únicos autorizados a receitar esse tipo de medicamento?
 
Miguel Chalub - Não acho que seja motivo para isso. Os outros especialistas têm capacidade de receitar, desde que não entrem nessa falácia, nesse engodo.
 
Istoé - Mas os demais especialistas estão capacitados para receitar essas drogas?
 
Miguel Chalub - Em geral, não.
 
Istoé - É comum o paciente chegar ao consultório com um “diagnóstico” pronto?
 
Miguel Chalub - É muito comum. Uma vez chegou um paciente aqui que se apresentou assim: “João da Silva, bipolar.” Isso é uma apresentação que se faça? Quase respondi: “Miguel Chalub, unipolar.” É uma distorção muito séria.
 
Istoé - O acesso à informação, nesse sentido, tem um lado ruim?
 
Miguel Chalub - A internet é uma faca de dois gumes. É bom que a pessoa se informe. A época em que o médico era o senhor absoluto acabou. Mas a informação via Google ainda é precária. Muitas vezes, a depressão, por exemplo, é ansiedade. Mas as pessoas não querem conviver com a ansiedade, que é uma coisa desagradável, mas que também faz parte da nossa humanidade. Tenho uma paciente que disse: “Ando com um ansiolítico na bolsa. Saí de casa, me aborreci, coloco ele para dentro.” Então é isso? Se alguém me fala algo desagradável, eu tomo um ansiolítico? Isso é uma verdadeira amortização das coisas.
 
Istoé - O que causa a depressão?
 
Miguel Chalub - Esse é um dos grandes mistérios da medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é conhecido, está ligado a uma substância chamada serotonina, mas o que o desencadeia, não sabemos. Há teorias, ligadas à infância, a perdas muito precoces, verdadeiras ou até imaginárias – como a criança que fica aterrorizada achando que vai perder os pais. As raízes da depressão estão na infância. Os acontecimentos atuais não levam à depressão verdadeira, só muito raramente. Justamente o contrário do que se imagina. Mas mexer na infância é muito doloroso. Não tem remédio para isso. Precisa de terapia, de análise, mas as pessoas não querem fazer, não querem mexer nas feridas. Então é melhor colocar um esparadrapo, para não ficar doendo, e pronto. É a solução mais fácil.
 
Istoé - O antidepressivo é sempre necessário contra a depressão?
 
Miguel Chalub - Quando é depressão mesmo, tem que ter remédio.
 
Istoé - Há quem diga que hoje a moda é ter um psiquiatra, não um analista. O que sr. acha disso?
 
Miguel Chalub - As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o isolamento. Não buscar psiquiatras e remédios. Em algum momento, isso pode ficar tão sério, tão agudo, que a pessoa pode  precisar de uma ajuda, mas para que a ensinem a enfrentar a situação. Ensina-me a viver, como no filme. Não é me dar pílulas, para eu ficar amortecido.
 
Istoé - O que é felicidade para o sr.?
 
Miguel Chalub - A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa: a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a definição de felicidade, não de saúde. Felicidade, para mim, é estar bem consigo mesmo e com o outro. Estar bem consigo mesmo é também aceitar limitações, sofrimento, incompetências, fracassos. Ou seja, felicidade também é ficar triste de vez em quando.