"Hóspede do Tempo" é o nome de uma canção que gosto muito. Escolhi esse nome pro blog porque também é uma boa imagem prá sensação que tenho sobre a vida, a de que estamos sempre em processo de amadurecimento, de crescimento. Pois esse processo se dá através do tempo. Aqui postarei minhas impressões sobre meu mundinho, sobre o que acontece ao meu redor, enquanto cresço, amadureço...
Creio que o que mais me impressiona na série de filmes do Harry Potter são os momentos em que aparecem os “dementadores”. Esses seres das trevas, guardiães da prisão de Azkaban, têm o poder de sugar a paz, a alegria e a esperança de todos à sua volta. Dessa maneira, retiram de suas vítimas todo o bom pensamento e a boa lembrança que estas possuem. Se elas sobrevivem, seguem suas vidas em total demência. Pra quem não viu o filme, devo dizer que a arma contra os dementadores é o feitiço chamado Expecto Patronum, que significa evocar a proteção contra esses seres do mal. Tal evocação consiste em mentalizar, com muita força, a melhor lembrança que se tenha. Ainda que o encanto do patrono não mate os dementadores - e aí leia-se que o mal vai estar sempre presente - esse feitiço protege quem a ele recorre.
Assim como Harry Potter e seus amigos, também estamos suscetíveis às investidas de dementadores das mais diversas naturezas. E essa relação tão direta entre o mundo ficcional criado por J.K. Rowling e o mundo em que vivemos me impressionou tanto que me trouxe a estas linhas. Sabemos que os dementadores se manifestam diariamente por meio da miséria, da violência, dos desastres ambientais; das politicagens, daquelas pessoas desagradáveis com as quais temos que conviver... tudo isso tira um pouco de nossa vontade de viver, de nossa esperança por dias melhores. E por mais que nos doa, sabemos também que muitas vezes os dementadores estão dentro de nós mesmos, e ganham força a cada momento em que deixamos de acreditar em nossa capacidade pessoal.
Mas o que é mais bonito nessa estória é o ensinamento de que o antídoto para os dementadores está ao nosso alcance, dentro de nós mesmos. Mas não é fácil ativar bons pensamentos em força suficiente pra se proteger de certos dementadores, eu sei... Quantas vezes nos deixamos sucumbir pelos dementadores cotidianos, e, nos esquecendo de quem somos, seguimos rumo ao caminho da anulação pessoal, da demência? Mas se ativamos essa força extraordinária que guardamos dentro de nós, poderemos combatê-los e seguir com nossos próprios pés pelo caminho que desejamos seguir. Mais protegidos contra o mal, conseguiremos caminhar maiores distâncias..
Nosso amigo Harry sabe que essa não é tarefa fácil. Mas ele mesmo é prova de que ela é mais que possível. Numa das cenas mais bacanas de confronto que Harry travou com os dementadores, ele descobre que é um bruxo de muito poder, pois só um bruxo de muito poder derrotaria a horda de seres negativos que o perseguiam. E a saga de Harry nos conta também que, muito mais que poderes de bruxo, um coração cheio de amor, alegria e esperança é um escudo fortíssimo contra o mal. Então, sigamos cultivando esses sentimentos dentro de nós, deixando-os bem vivos pra que sejam nosso escudo contra todos os males. Vamos nos fortalecendo e evocando o Expecto Patronum, pois os dementadores estarão sempre à espreita...
"Porque es tan fuerte, que sólo podré vivirte en la distancia y escribirte una canción" (Barcelona - Giulia & los Tellarini)
O conceito geográfico de lugar foi um dos que mais me cativou durante o curso de Geografia. De acordo com essa corrente científica, ‘lugar’ é um conceito que parte da constatação dos vínculos afetivos que desenvolvemos com certos espaços ao longo de nossa existência. O lugar é então um espaço ao qual nos ligamos afetivamente, e em relação ao qual nutrimos um profundo sentimento de pertencimento, de ‘estar em casa’. Disso decorre que todo e qualquer indivíduo desenvolve um senso de lugar com seus espaços de vivência, num processo que é pessoal. Disso decorre também que ao longo de nossa vida podemos habitar certos espaços aos quais não nos sentimos vinculados afetivamente, e por essa razão tais espaços nunca serão lugares – na acepção geográfica. O conceito de lugar está, portanto, muito presente em nossas vidas, e talvez por essa razão eu o considere tão interessante.
Em setembro do ano passado fiz uma viagem à Espanha que me fez entender na prática uma outra característica do conceito de lugar: a de que ele é construído com o tempo, em processo, e não de uma hora pra outra. A localidade que desencadeou essa experiência foi a cidade de Barcelona.
Bem, Barcelona dispensa apresentações. E como é uma cidade dotada de muitos predicados, eu estava cheia de expectativas quando cheguei lá. Seria impossível não a-mar de cara aquele lugar. Porém, por conta de alguns inconvenientes, não senti por essa cidade a mesma empatia instantânea que senti por outras visitadas, nem tampouco a paixão fulminante que Granada despertou em meu coração (ah...Granada...um dia escrevo aqui sobre essa preciosidade).
Não me senti ‘em casa’ em Barcelona quando me perdi no trem entre o aeroporto e a pensão, ou quando o Catalão tão presente me fez sentir profundamente solitária; ou ainda quando a chuva inclemente que anunciava o início do outono me impediu de fazer meu primeiro passeio de ‘reconhecimento de área’ e me confinou a meu quartinho impessoal de hospedagem. Minha primeira impressão de Barcelona foi a de uma cidade fechada e cinza. Senti saudade do sol e do aconchego de Granada...caí até no erro de comparar cidades, e pensei que Barcelona era uma espécie de São Paulo litorânea, enquanto os ‘Rios de Janeiro’ ficariam no interior, em Madrid e em Granada. Muito, mas muito simplista esse meu raciocínio.
Mas se alguma comparação pode ser feita entre Barcelona e São Paulo (além do fato de essas duas cidades comandarem as regiões economicamente mais ricas de seus países), é que culturalmente as duas são colchas de retalhos muito, mas muuuuiito interessantes. Diria melhor: são caleidoscópios que por sua natureza podem confundir os mais desavisados.
Aos poucos fui conhecendo os atributos da cidade, e enquanto o tempo melhorava, eu ía me ambientando. Aprendi a andar pela Ciutat Vella, e viajei no tempo ao vislumbrar suas construções medievais. Pude até viajar mais ainda e caminhar entre ruínas romanas. Me emocionei com as obras de Gaudí, em especial com a Sagrada Família, que encheu minha alma de uma ternura profunda. Sofri uma grande indecisão sobre que bairro escolheria pra morar, se um dia viesse aresidir em Barcelona: o boêmio Born, que me pareceu uma Santa Teresa plana, ou o Eixample, símbolo da arquitetura modernista catalã – e confesso que ainda não me decidi.... Num delicioso passeio pelo Montjüic pude respirar ar puro em plena cidade. Aproveitei um pouco das festividades da Festa de La Mercè, "a festa dos catalãos", onde o show do Quimi Portet foi o ponto alto. Mesmo não entendendo uma palavra do que ele cantava (pois cantava em catalão), a linguagem universal das guitarras me fez gritar de alegria junto com os locais. Me deixei inebriar pelo colorido dos produtos do mercado de Saint Joseph, o conhecido Mercat de la Boqueria. No último dia, o derradeiro passeio pela Rambla já teve um tom nostálgico. E como fazia sol, foi com muita tristeza que conheci melhor a Barceloneta, e lamentei que não ficaria para o fim de semana.
Ainda saí de Barcelona pensando que tinha gostado do passeio, mas tinha faltado algo. (alma perturbada essa a minha, não?) E desde então, curiosamente, das sete cidades que visitei, é em Barcelona que mais penso quando me lembro da viagem que fiz. Desde então, posso dizer que sigo construindo meu ‘senso de lugar catalão’.
Barcelona, foi mal...acho que exigi demais de você em nosso primeiro contato, mas tua fama é tanta que me assustei e me confundi. Me desculpe se em algum momento levantei contra você algum falso testemunho. Logo você que é uma cidade única na diversidade. Hoje o que sinto por ti é uma vontade imensa de te ver de novo. Espero poder fazê-lo, e que não demore tanto...
Vídeos de música relacionados:
Barcelona - Giulia Y Los Tellarini
Por qué tanto perderse,
tanto buscarse,
sin encontrarse?
Me encierran los muros de todas partes.
Barcelona
Te estás equivocando...
No puedo seguir inventando
que el mundo sea otra cosa
y volar como mariposa.
Barcelona
Hace un calor que me deja
fría por dentro
con este vicio de vivir mintiendo
Que bonito sería tu mar si supiera yo nadar.
Barcelona
Mi mente está llena de cara de gente extranjera,
conocida, desconocida.
He vuelto a ser transparente.
No existo más...
Barcelona
Siendo esposa de tus ruidos,
tu laberinto extrovertido.
No hay encontrado la razón.
Por qué me duele el corazón?
Porque es tan fuerte
que sólo podré vivirte
en la distancia y escribirte una canción.
Te quiero, Barcelona!
Barcelona és poderosa!
Homes i dones del cap dret - Quimi Portet
D'esquena al mar i a la muntanya; completament al marge
de l'activitat industrial; sota una col, canta el poeta:
Des d'una àrea de servei,
la meva terra
es com un parrac grapejat;
un país vençut pel davant
i pel darrere;
d'atrotinada dignitat.
Adéu turons amics,
adéu rieres,
boscos d'alzines i de roures i fagedes.
Muntanyes del meu cor,
adéu estrelles,
adéu al mar pur de cristalls i de turqueses.
Lleugerament trastocat, el poeta continua cantant:
Sona una guitarra
i el solet no vol sortir;
a veure la terra promesa
com fa el seu darrer sospir.
Hola pudors d'inferns
brutes i abjectes;
d'animals escorxats, sentor de sang i merda.
Adéu olors d'abans:
fenc, trepadella;
d'espígol dolç, i farigola a l'escudella.
Adéu amor, bonica,
la millor amiga,
adéu rateta que escombrava l'escaleta.
I allà a sota una col,
canta el poeta:
homes i dones del cap dret, adéu per sempre.
Pela tradução aproximada do Google, percebe-se que a letra critica a devastação ambiental causada pelas remodelações urbanas. Achei legal porque nesse post falo de vínculos afetivos com o lugar, e a letra descreve todas as perdas afetivas decorrentes da alteração desenfreada ocorrida em certas cidades.
"colinas amigos Adeus
adeus córregos florestas de carvalhos e (..) carvalhos. Montanhas do meu coração estrela adeus
adeus ao mar cristalino puro e azul-turquesa."
"Soa uma guitarra
e não quero deixar sozinho; para ver a terra prometida Como o seu último suspiro.
Olá fedor do inferno bruta e miserável;
(...) Adeus cheiros de antes: feno, Onobrychis; doce de lavanda, tomilho e a sopa.
Adeus amor, belas melhor amigo ratinho adeus (...)
E ali, (...),
o poeta canta: homens e mulheres de qualquer direito, adeus para sempre".
Barcelona é uma cidade mutante, e por isso esse tema deve ser tão tocante ao artista.
Das várias tarefinhas que pretendia realizar nas minhas três semanas de descanso, uma das poucas que consegui foi a de ver todos os filmes da saga Harry Potter. Era uma questão de honra fazer isso, já que desde o primeiro filme, lá dos idos de 2001 se bem me lembro, estou me devendo entrar nesse mundo mágico dos bruxos.
Ontem fui ao cinema assistir ao Harry Potter e as Relíquias da Morte 7.1. Foi o primeiro que assisti na telona, e é uma pena que seja o penúltimo, já que o próximo volume (Harry Potter e as Relíquias da Morte 7.2) será o último dessa saga fantástica.
Mas, se já atualizei meus conhecimentos sobre a estória, falta muito ainda pra entender todos os significados do universo mágico criado por J.K. Rowling. E falta também ler os livros, que é outra tarefa que não sei quando cumprirei... :?
Pra entender as mensagens subliminares do universo 'potterístico', vou buscar a ajuda da expert Dinha, uma das minhas ilustres leitoras, que já se ofereceu pra ministrar um mini-curso sobre Harry Potter. O combinado era vermos os filmes juntas, Dinha, eu sei, mas como tinha tempo, fui começando o serviço. Mas ainda quero as aulas!! :)
Talvez eu volte a escrever mais por aqui sobre essa minha mais recente gamação. Por ora só queria registrar que já sei o que se vende na Travessa Diagonal, o que é Quadribol e pra que serve conjurar um patrono.. :)
Fiz duas viagens curtas nessas férias, bem acompanhada de alguns dos amigos que tenho. A primeira foi prá virada do Reveillon. Fui com mais três amigas pra Ilha Grande, local que já conheço, mas que sempre gosto de visitar. Foi a primeira vez que passei o Reveillon fora do Rio. Adorei a experiência de me retirar pra descansar e já ir recarregando a bateria pra começar mais um ano. Um lugar que amei revisitar foi a Cachoeira da Feiticeira, à qual se chega por uma trilha que parte da praia da Feiticeira. Diz a lenda que havia um casal de franceses vivendo nesse local, e na época em que a Ilha Grande ainda era porto de vários navios negreiros, a mulher do casal, uma curandeira, cuidava dos escravos feridos. Ela foi tida pela Igreja Católica como feiticeira e morta numa fogueira. Mas a praia e a cachoeira guardam a lembrança de sua existência, assim como algumas ruínas da casa em que moraram no meio da mata. Segue fotinha da cachoeira.
E depois, no primeiro fim de semana do ano, 'zarpei' pra passar dois dias com amigos em Araruama. Nunca tinha ido prá cidade, só passado por ela. É gostoso ter, tão perto do Rio, um lugar pra ficar num ritmo mais tranquilo. Além de irmos a uma praia de Arraial do Cabo, que estava cheíssima e que por isso quase não fotografei, curtimos um dia na Praia dos Amores, na lagoa de Araruama mesmo. Uma delícia, água morninha, praia rasa e sem ondas. Tirei umas fotos 'bucólicas' de lá. Posto aqui uma delas, que foi quando tentei fotografar uma garça branca linda que tava parada ao lado do barco, mas ela voou logo na hora em que cheguei perto...
Estou curtindo um breve período de férias, no qual tenho feito algumas coisas bem legais. Uma delas foi ter ido à exposição da obra Guerra e Paz do Cândido Portinari, que esteve aqui no Rio nada mais nada menos que no nosso belíssimo Theatro Municipal, o que tornou o passeio uma honra dupla pra mim.
A obra, composta por dois murais de cerca de 14x10 metros cada um, retrata a visão do artista sobre o que seria um cenário de guerra e o que seria um cenário de paz. Foi encomendada pelo governo brasileiro na década de 50 para presentear a ONU. Esses murais estão desde então expostos no hall de entrada da Assembléia Geral da ONU em Nova Iorque, e voltaram ao Brasil para passar por uma minuciosa limpeza. Foram expostos uma única vez aqui no Rio em 1956, voltaram agora, e serão expostos novamente no Brasil após limpos (e oxalá eu possa vê-los de novo) antes de voltarem aos EUA.
Guerra e Paz é marcante na carreira de Portinari pois esses foram os últimos murais elaborados pelo artista. Para quem não sabe, Portinari estava terminantemente proibido de pintar pois apresentava sintomas de intoxicação por tinta. Mas vislumbrando a oportunidade profissional que tal empreitada representaria, o artista aceitou a tarefa, sabendo que estaria assinando com isso sua pena de morte. As reportagens escritas e televisionadas que vi recentemente mostram que esse interesse profissional revelava sua vontade de pintar, e de pintar um tema tão forte e caro à humanidade como o é a dupla guerra e paz. Foram 4 anos de dedicação ao projeto, de 1952 e 1956, entre elaboração de estudos e pintura. Em 1956 os painéis foram expostos pela primeira vez no palco do Theatro Municipal, onde tivemos a honra de vê-los agora.
"os painéis Guerra e Paz representam sem dúvida o melhor trabalho que já fiz...
dedico-os à humanidade..." (Portinari, 1957)
Como disse, são duas telas enormes, uma representando a guerra e a a outra a paz. Em relação ao tema Guerra, o folder explicativo que deram na exposição nos conta que ao contrário de outras representações de guerra eternizadas na história da arte, entre elas o Guernica de Picasso, a abordagem de Portinari busca representar a guerra não pelas armas ou pela lembrança da violência física, mas pelo que ela tem de mais marcante em qualquer época, "o desencadeamento de horror e animalidade". Em tons que vão dos azulados aos violáceos, passando por reflexos esverdeados, um cenário soturno de fome, dor e morte é apresentado. Já no painel Paz, elaborado em tons pastéis que refletem alegria e tranquilidade, o artista registrou "um universo de paz, de comunhão fraterna no trabalho produtivo, num reino mágico de cores reluzentes, do som da ciranda de jovens num canto universal de fraternidade e confiança, ou da candura dos folguedos infantis".
Eu fiquei emocionadíssima com essa exposição. Gosto muito dos trabalhos do Portinari, acho a história de vida dele muito bonita, e sua faixão de morte pela pintura é comovente. Tenho muito orgulho de ser do mesmo país que esse Grande Artista.
Termino com um vídeo de uma canção que foi uma homenagem linda que fizeram a ele. Não sei de quem é sua autoria, vou ficar devendo. Mas ela foi cantada graciosamente pela Grande Mercedes Sosa, o que torna esse vídeo imperdível. Se chama "Un Son para Portinari".
Así con su mano dura,
hecho de sangre y pintura,
sobre la tela,
sueña y fulgura,
un hombre de mano dura.
Portinari lo desvela
y el roto pecho le cura.
Chegamos ao final de mais um ano e de mais uma década. Se em outros momentos do ano o caráter cíclico da vida passa despercebido por nós, no fim do ano ele se mostra com toda sua força. É momento de reflexão e de preparação interna pra mais um ano que começa.
Termino esse que acho que será o últimpo post do ano com as palavras de Drummond, que resumem bem os sentimentos que nos tomam nesse período de Festas. E aproveito pra desejar pra todos (e pra mim também) um 2011 próspero e feliz, e que saibamos fazê-lo verdadeiramente novo.
Feliz Ano Novo!!
Receita de ano novo
(Carlos Drummond de Andrade)
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
Sempre passo meus natais com meus pais e irmã amados. Acho que o fato de celebramos o nascimento de uma criança me faz sentir um pouco criança também nessa data, e por isso é tão fundamental estar com eles. E a minha recordação de Natal mais bonita envolve uma criança, e o despertar da esperança que essa data evoca.
Eu não me lembro exatamente o ano em que o fato ocorreu. Deve ter sido há quase uns 18 anos atrás (depois de quando foi tirada a foto acima, que pelo que me lembro também foi tirada num período de Festas). Nossa, como o tempo passa rápido, porque ainda tenho essa memória tão viva em mim como se fosse de ontem. Quando eu tinha uns 14 anos mais ou menos, fui trabalhar, ou melhor, fazer 'uns bicos' como operadora de brinquedos num parque de diversões perto de casa. Era um parque grande, se chamava Play Toy, e agora tô até me perguntando como é que eles contratavam menores de idade e sem experiência nenhuma pra operar os brinquedos...mas deixa isso pra lá...o fato é que eu tinha um empreguinho de fim de semana que me garantiu uns troquinhos pra comprar presentes de Natal pros meus pais e irmã naquele ano.
Combinei com meus pais de incentivarmos minha irmã, que deveria ter uns 6 anos, a escrever uma cartinha pro Papai Noel pedindo um presente de Natal. A idéia era que ela escrevesse pra ele pedindo o que eu tinha comprado pra ela, e levá-la a colocar a tal carta num sapatinho na janela e aguardar até a chegada do presente. Ela era pequena, e a gente pensava que era bonito alimentar nela a crença no Papai Noel, no sentido de alimentar nela a esperança de que seus sonhos poderiam se tornar realidade se ela acreditasse neles. Eu tinha comprado pra ela um batonzinho em forma de moranguinho muito comum na época. Mas Amanda, que sempre pensou grande, queria pedir pro Papai Noel algo caro, não me lembro o quê, e nós tivemos um trabalhão em persuadi-la a escolher uma coisa mais barata. "Amanda, o Papai Noel tem que comprar presente pra todas as crianças do mundo, pede a ele algo mais baratinho, como um batonzinho...". Ela ficou meio desapontada, mas escreveu o que a gente a induziu a escrever - ela queria um batonzinho de presente de Natal. Colocou a cartinha num sapatinho na janela e aguardou.
Depois da Ceia, batonzinho já colocado no sapato, estávamos na sala e fizemos a simulação de termos ouvido barulhos na janela onde estava o calçado com a cartinha. "Amanda, acho que o Papai Noel já passou aqui! Vai lá ver se teu presente está lá!" Ela ficou cheia de medo, mas foi. E nós fomos juntos, nos entreolhando. Ela pegou o presente, toda admirada e contente, e exclamou: "O Papai Noel existe!" E logo se pôs a chorar de alegria. Não preciso dizer que nós choramos juntos com ela.
E quem me conhece bem pode supor que estou chorando agora também, e é verdade. Essa estória me emociona demais, como sempre me emociono ao lembrar do amor que une minha família.
Sei que o mundo está muito complicado, que a esperança agoniza no cantinho de um corredor lotado de hospital, e que o Natal parece cada vez mais se reduzir a um feriado comercial. Mas ainda creio na importância de celebrar o Natal, como um momento pra se estar em companhia de pessoas queridas, um momento pra sonhar juntos, pra reforçar o estoque de amor e esperança dentro de nós.
E é isso que desejo a quem passar por aqui, que possa estar junto aos seus nessa data, e que tenha a esperança renovada em seu coração. Feliz Natal a todos.